Sexta, 06 Mai 2022 13:45

Não sou negra mas tenho aflições que toda mãe de filho negro tem

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Ciente do seu posicionamento proativo contra o racismo e pelo seu comprometimento com a democracia, o CPP apresenta como protagonista do Dia das Mães Priscilla Celeste, professora, tradutora e autora do livro “Do Outro Lado, do Lado de Cá” por viver e compartilhar sua atuação antirracista na educação e no empreendorismo social.

Ação racista que marcou a família
Em janeiro de 2013, Renan, então com sete anos e o caçula de cinco irmãos, acompanhava seus pais Priscilla e Roni até a loja BMW Autocraft, uma concessionária de carros de luxo. Interessado em um dos veículos, o casal conversava com o gerente enquanto Renan aguardava numa área de espera.  De repente, a criança é abordada:

“Você não pode ficar, aqui não é lugar pra você. Saia da loja”, disse o gerente.

Ao perceber o desconforto, o homem se dirige ao casal: “esses meninos pedem dinheiro e incomodam os clientes”.

O casal se retirou da loja com seu filho Renan e denunciaram. O ato racista foi um dos primeiros a ganhar repercussão da mídia. A loja foi condenada por danos morais a pagar uma indenização de 22 salários- O dinheiro foi doado à Associação Nova Vida, instituição que apoia crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Portal CPP:  O que a fez seguir uma jornada contra os impactos individuais e coletivos do racismo?


Priscila: Eu não sou uma mulher negra, eu não tenho as marcas que o racismo estrutural imprime na vida e na existência de uma mulher negra. Contudo, eu sou mãe de um menino negro e tenho as mesmas aflições de qualquer mãe de um filho negro tem em um país em que um jovem preto morre a cada 23 minutos vítima da violência”, explica Priscilla.

“Logo que o Renan chegou nós começamos a perceber o racismo velado dentro do nosso próprio círculo de relações. Fomos convivendo com o racismo, aprendendo e nos percebendo, até que nos conscientizamos de que era imprescindível estudar essa questão”, acrescenta a autora. “Um menino que você cria na infância dizendo: ‘se manifeste, se expanda, ocupe seu lugar no espaço’, de repente, chega na adolescência e você tem que dizer a ele: ‘não corra, não reaja, não coloque a mão no bolso porque alguém pode interpretar de forma errada’”.


Priscila Celeste e Roni Munk tem cinco filhos. O caçula é Renan, um jovem negro que, atualmente, tem dezesseis anos, “nasceu na família aos dois”, e foi com a sua chegada que essa família multirracial de classe média alta começou a vivenciar, “do lado de cá”, os impactos individuais e coletivos do racismo sobre “o outro lado”.

Como mãe e professora, qual a sua expectativa de viver em uma sociedade realmente proativa contra o racismo?

Priscilla fez questão de destacar uma frase da mestra em Filosofia Política e ativista Djamila Ribeiro, que diz “perceber-se é  transformador.
“É preciso reestudar a história do Brasil, essa escravidão mal resolvida, todas as consequências e impactos dessa história sob uma outra perspectiva. É preciso que a gente estude e leia autores negros que o nosso universo branco não conhece, porque a escola não mostra, a universidade não mostra. Só a partir daí podemos dizer que temos um posicionamento proativo contra o racismo”, destacou  Priscila, professora, escritora, tradutora e mãe.


Llivro "Do Outro Lado, do Lado de Cá", de Priscilla Celeste e Roni Munk.

Foto: Americam Adoption

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2 comentários

  • Link do comentário Valéria Emengarda Domingo, 15 Mai 2022 14:44 postado por Valéria Emengarda

    Teríamos q mudar o mundo inteiro pq todos somos bairristas e não patriotas. A entrevista mostra de forma esclarecedora q devemos compartilhar e não desistir dessa luta contra a vida de outros,,tão sem graça, onde tudo ficaria pálido ,sem música, sem sabor,sem arte e sem amor.

  • Link do comentário Miriam Vieira Segunda, 09 Mai 2022 11:13 postado por Miriam Vieira

    Amei o texto, e fiquei pensando. Se uma criança com pais brancos, de classe média alta passa por isso, imagine quantas limitações e discriminações não passa uma criança pobre.
    Será que em 100 anos conseguiremos mudar esse preconceito. Triste isso

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