Quarta, 20 Dezembro 2017 16:25

Academias Estudantis de Letras e outras histórias de Suelizinha

Mônica de Araújo
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Academias Estudantis de Letras e outras histórias de Suelizinha Foto: Maria Sueli Fonseca Gonçalves - divulgação/arquivo pessoal

Idealizadora, protetora, fada madrinha, seja qual for a palavra escolhida, verdade é que foi a educadora Maria Sueli Fonseca Gonçalves, a Suelizinha, como carinhosamente é conhecida, quem criou e implementou o vitorioso projeto de  incentivo à leitura nas escolas, a Academia Estudantil de Letras.
  

Uma das mais respeitadas educadoras da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, extremamente admirada e estimada pelos seus pares, a professora Sueli tornou-se referência profissional não só em São Paulo, mas em todo o Brasil. 

A forma envolvente de impulsionar o interesse literário dos alunos tornou-se um exemplo multiplicado em diferentes escolas. 

Conheça a história da menina apaixonada pelos livros que virou educadora que enxerga longe.
 

Portal CPP: Quem a influenciou a ler? 

Professora Sueli: Posso dizer que a leitura sempre permeou a minha vida, pois, quando ainda não sabia ler, a minha maior vontade era “aprender a ler”. Que vontade de desvendar aquele universo de histórias que me contavam, que liam para mim! Até então, eu me divertia inventando histórias, a partir das imagens dos livros. Minha família sempre me incentivou nesse sentido. O meu pai contava, cantando, histórias de Cordel, ao redor da mesa da cozinha, e como isso me encantava e despertava a minha imaginação! Já “quase” sabia ler quando, aos seis anos, ingressei no Jardim da Infância. Nem minha mãe nem meu pai tiveram a oportunidade de estudar além do ensino “primário”, mas sempre valorizaram o estudo, a escola, a leitura, e encaminharam os filhos para o mundo das letras. A escola continuou alimentando o meu amor aos livros e não demorou muito para eu entender que seria professora, que era essa a profissão que abraçaria.
 

Por que escolheu o magistério? Como foi o seu início como professora?

Tudo aconteceu naturalmente, seguindo a um impulso, a uma vocação. Aos 10 anos, consegui alfabetizar uma amiguinha, de 7 anos! Essa foi a minha primeira experiência como “professora”. Enquanto brincava de “escolinha” com Maria Helena, consegui essa proeza. Foi divertido e descobri que gostava de ensinar. Tudo o que aprendia na escola eu ensinava para as minhas bonecas e para as colegas mais novas. No final do ensino médio, optei pelo curso de Letras, que concluí na USP, em 1975. Porém,  ingressei no magistério somente em 1996, já com mais de quarenta anos de idade, e com três filhas, crescidinhas, o que me deixava vislumbrar uma grande possibilidade, enfim, de ir ao encontro do meu sonho de tornar-me professora. Minha primeira escola foi a EMEF General Othelo Franco, no Tatuapé. Iniciei como “eventual”, já concursada e aprovada como “professor adjunto", na Rede Municipal de Ensino (RME). Foi desafiador o meu início como professora, na mesma proporção em que foi apaixonante! Eu tinha nascido para ser professora (eu tinha certeza).
 

Quais os seus autores prediletos?

Fui colecionando “autores prediletos” ao longo dos anos, o que me impossibilita de nomeá-los aqui. São muitos e se enfileiram diante de mim, de modo que vejo apenas o início da fila, que se prolonga por uma estrada da qual não enxergo mais o fim. Só sei que devo a eles a minha inspiração, para idealizar a Academia Estudantil de Letras (AEL).
 

Qual foi o seu objetivo ao criar a Academia Estudantil de Letras?

Tive dois objetivos principais, desde o início: o primeiro, obviamente, relacionado com a leitura e com a literatura; o segundo, relacionado com a Cultura da Paz. Pensei em propiciar o acesso incondicional à leitura, promover o encantamento pela literatura, desenvolver o interesse e o gosto por ambas, de forma prazerosa. Pensei, também, em contribuir para a formação/manutenção de um ambiente pacífico e solidário na escola, utilizando a Arte, sobretudo a Literatura e o Teatro, como fontes de humanização e de  elevação da autoestima.
 

Quantas são atualmente e em que ano foi criada a primeira AEL?

A primeira Academia Estudantil de Letras – AEL Padre Antônio Vieira - foi fundada em 30/05/2005, na EMEF Padre Antônio Vieira, zona leste de São Paulo.
A partir de 2006, fui convidada a compor a equipe da Diretoria Regional de Educação (DRE) da Penha, para iniciar a expansão das academias estudantis de letras pela região. Chegamos ao final do ano de 2014 com 30 academias fundadas. Em 2015 fui convidada a compor a equipe AEL, na Secretaria Municipal de Educação (SME), ano em que foi publicada a Portaria 5.296/15, instituindo o Projeto AEL nas Unidades Educacionais que mantêm o Ensino Fundamental e o Ensino Médio da Rede Municipal de Ensino (RME). Assim, ao final de 2016, chegamos ao total de 103 academias na Cidade. Atualmente, temos 120 academias constituídas, considerando as efetivamente fundadas e as que se encontram em processo de fundação.
 

Cite um exemplo que a deixou comovida. Entre tantas histórias, que leitura modificou a maneira de um aluno enxergar o mundo? 

Os relatos são frequentes nas escolas que desenvolvem o Projeto AEL, nas diversas regiões de São Paulo, pela equipe gestora e docente, sobre a mudança de comportamento e o reflexo positivo do trabalho em sala de aula. Todos são acolhidos no Projeto AEL, independente de serem excelentes, ótimos, bons alunos, ou, ao contrário, serem alunos com dificuldades de leitura, apresentarem desempenho escolar insatisfatório, conduta disciplinar inadequada etc. Então, temos notado, com muita alegria que, participando do Projeto AEL, esses mesmos alunos, ao sentirem sua autoestima elevada, ao se verem protagonistas de ações relevantes, naturalmente se modificam para melhor e até da família deles recebemos esses relatos tão importantes e motivadores para todos nós.
Houve um episódio particularmente incrível! Aconteceu comigo, enquanto coordenadora dos estudos literários na AEL Padre Antônio Vieira. Essa história está registrada e culminou com uma premiação (clique aqui para conferir). 
 

O que faz uma criança gostar de ler?

Talvez nem todas as crianças venham a gostar de livros, como desejamos, porém, é certo que a maioria delas irá gostar de ler, se tiverem acesso ao livro, se forem estimuladas para a leitura desde a mais tenra idade, se forem acompanhadas amorosamente por um adulto que goste delas, que goste de livros também, que tenha paciência para ouvi-las e elogiá-las, quando conseguirem soltar a imaginação e voar sem limites pelas páginas de um livro.
O que é certo também é que nenhuma criança poderá se apaixonar por livros se não tiver acesso a eles.
 

Os índices afirmam: o nosso povo não lê. Qual a maior barreira entre o brasileiro e o livro?

Talvez seja o lugar-comum: “Brasileiro não gosta de ler”. Isto se apresenta como algo posto, como algo que não se pode mudar, quase como um estigma. Apesar dos índices, tenho comprovado pelo Projeto AEL e pela minha prática na área da Educação, que podemos mudar essa realidade, a começar por facilitar o acesso à boa leitura às crianças, aos jovens e aos adultos, sob nossos cuidados e orientação.
 

Diante de um ano novo, o que você diria a um educador que deseja incentivar um aluno a ter prazer na leitura?  

O Ano Novo sempre traz à tona o recomeço. Fazemos, naturalmente, nessa época, um balanço do que conseguimos e do que desejamos alcançar. Em se tratando de incentivar um aluno ao prazer pela leitura, é essencial que nos coloquemos no lugar desse aluno, considerando a sua idade, seus anseios, suas necessidades. Então, eu creio que devamos buscar dentro de nós mesmos uma ideia. Cada um saberá buscá-la, acarinhá-la e colocá-la em prática, do seu modo particular. O segredo é que seja uma ação amorosa, que encante e que contagie.
 

Quais os projetos para ampliar as AELs?

Zelar pelas academias já constituídas, incluindo as que já foram fundadas e as que estão em processo de fundação. Contribuir para a implantação de novas academias. Continuar a oferecer os cursos de formação e manter o entusiasmo, o amor e a dedicação ao Projeto, que é para mim muito mais do que um trabalho: é uma Paixão.

5 comentários

  • Link do comentário Roseli Ap. Branco Vieira Quarta, 27 Dezembro 2017 11:17 postado por Roseli Ap. Branco Vieira

    Sou apaixonada pela Suelizinha. Amo o seu trabalho. Seu trajeto é espetacular e o amor que ela dedica às AELs já criadas e as q estão em rumo de criação, é exemplar. Meus agradecimentos à Sueli são intensos. Encantadora.

  • Link do comentário Samir Ahmad dos Santos Mustapha Sexta, 22 Dezembro 2017 15:57 postado por Samir Ahmad dos Santos Mustapha

    Uma história de amor pela educação. Um projeto que transformou a rede municipal de São Paulo. Viva a AEL e parabéns por tudo,Suelizinha!

  • Link do comentário Carlos Lima Educom Imprensa Jovem. Sexta, 22 Dezembro 2017 13:14 postado por Carlos Lima Educom Imprensa Jovem.

    Suelizinha é uma pessoa inspiradora

  • Link do comentário Laura Aparecida Guimarães Corrêa Sexta, 22 Dezembro 2017 11:14 postado por Laura Aparecida Guimarães Corrêa

    Tenho o privilégio de conhecer Suelizinha, e é tudo isso mesmo! Vc é encantadora, encorajadora e nos leva com seu sonho. Assim, sonhamos juntas. Agradeço a essa pessoa maravilhosa que é minha inspiração, querida Suelizinha.

  • Link do comentário Rosa Maria Aurora Bartalini Quinta, 21 Dezembro 2017 20:24 postado por Rosa Maria Aurora Bartalini

    Suelizinha, uma pessoa especial, encantadora, de brilho próprio!
    Suelizinha merece todo nosso reconhecimento!
    O vôo da AEL está cada vez mais alto e audacioso! Um projeto que veio para ficar!

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