Terça, 17 Abril 2018 10:26

O melhor remédio para a voz do professor é a informação

Mônica de Araújo
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O melhor remédio para a voz do professor é a informação Foto: arquivo pessoal/Facebook

Na semana da voz, para levar informação aos professores, o Centro do Professorado Paulista convidou a fonoaudióloga Thelma Mello Thomé de Souza Pereira para esclarecer os pontos fundamentais para manter o aparelho vocal sadio, em plena atividade.

A entrevista da especialista representa uma oportunidade singular de disseminar conhecimento acerca de um assunto de fundamental importância, especialmente aos profissionais da educação.
 

Thelma atua na Coordenação de Gestão de Saúde do Servidor da Prefeitura Municipal de São Paulo. Fonoaudióloga com especialização na área de voz, com mestrado pela PUC, atua na avaliação de voz para subsidiar a perícia médica e também na promoção da saúde vocal dos professores da rede municipal de ensino.
 

Portal CPP: Quais os problemas vocais mais preocupantes que afetam os professores? 

Thelma Mello Thomé de Souza Pereira: A maioria dos professores desconhece como a voz é produzida, quais os aspectos podem facilitar o uso da voz em sala de aula. Muitos professores não valorizam a voz como instrumento de trabalho. Na verdade, eles não se sentem como profissionais da voz. Isso leva a um desgaste que acaba gerando alterações associadas ao uso incorreto da voz, o abuso vocal.
 

Quais as precauções que os professores devem tomar em relação ao aparelho vocal para não danificarem a voz?

O primeiro passo é ter a percepção que a voz é o seu instrumento de trabalho. Alguns cuidados individuais são extremamente importantes. O principal deles é a hidratação. O professor deve ingerir água em temperatura ambiente, em pequenos goles, enquanto estiver usando a voz em sala de aula. Outro fator que ajuda é a inalação. Tudo o que é inalado passa pelas cordas vocais e hidrata a região da laringe, que é muito importante. 

Outro fator de cuidado é a alimentação. Alguns alimentos favorecem o Refluxo Gastro Esofágico que pode intervir, também, na qualidade da voz. Um ácido que fica retido no estômago, responsável pela digestão, que por algum motivo sobe pelo esôfago, passa muito perto das cordas vocais, perto da laringe. Isso pode levar a uma irritação e como consequência uma rouquidão. Então, o cuidado com a alimentação é muito importante. O professor geralmente trabalha em dois ou três empregos, come muito depressa, lanches e salgados. Por vezes, se alimentam muito tarde da noite e logo vão dormir; isso favorece muito o refluxo, que pode causar alteração na voz. 

A postura corporal também merece atenção. É importante manter uma postura ereta, relaxada. A roupa e os calçados devem ser confortáveis. Não falar de frente para a lousa, ficar sempre de frente para os alunos, são alguns aspectos relevantes em sala de aula. 

A musculatura da laringe e as cordas vocais começam a funcionar a partir da hora em que acordamos. O tempo de descanso durante o sono é fundamental. 

Oriento muito os professores em relação aos sprays e pastilhas. Aplicam muito quando acham que a voz não está boa ou que têm algum incômodo na garganta. Usam os sprays ou chupam uma pastilha e acham que está tudo resolvido. Geralmente acaba piorando a situação. A maioria funciona como anestésicos. A dor é um importante sinal de alerta. Se há algum desconforto na garganta e uso um anestésico fico com uma falsa sensação de melhora porque parei de sentir o que estava me incomodando. Uma vez que o efeito anestésico passa, muitas vezes o desconforto volta pior do que antes. O conselho que dou é que evitem os sprays e as pastilhas. Respeitem o corpo. Se existe uma dor, um incômodo, é sinal de que algo não está bem.
 

Qual o motivo da criação do Dia Mundial da Voz?

A data é uma iniciativa brasileira. Foi criado para sensibilizar a população que uma rouquidão pode ser associada a um quadro alérgico, gripal, mas também pode ser indício de um câncer de laringe. Surgiu por conta disso. Um sintoma simples pode ser um indício de algo mais sério. O Brasil foi um dos países com um dos maiores índices de câncer de laringe do mundo. Diminuiu muito, mas ainda tem um grande número. Claro que a porcentagem de uma rouquidão ser um sintoma de câncer de laringe é muito pequena. Geralmente é consequência do uso incorreto da voz, como pólipos, nódulos nas cordas vocais, enfim, quadros mais simples. 
 

Quais os erros mais comuns praticados pelos professores que podem danificar a voz? 

A competição sonora é bem presente no ambiente escolar. As escolas, no geral, não são silenciosas. O ruído dentro da escola faz com que o professor precise utilizar uma forte intensidade de voz para se sobressair no ambiente. Isso pode levar a uma patologia ligada ao abuso da voz. Existem muitos fatores. Além dos ruídos internos, há os externos. O pátio da escola com alunos fazendo educação física, perto da sala de aula, por exemplo. O esforço que o professor faz para ser ouvido é enorme. O ruído é a principal queixa do ambiente de trabalho. Infelizmente, na estrutura das escolas, a acústica ainda não é prioridade. Temos na sala de aula, também, o giz. Muitas escolas ainda têm a lousa verde. O giz irrita a laringe. Também há presença de produtos de limpeza. Lidar com esses fatores é complicado. 
 

Onde o professor pode pedir ajuda?

Trabalhamos muito pela valorização da CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Voltada para a prevenção das doenças profissionais. Orientamos muito para que o professor procure os representantes da CIPA na sua escola quando percebe que há problemas no ambiente escolar que possam estar prejudicando a saúde dos trabalhadores. Um grupo de professores com apoio da gestão pode sim achar alternativas. Na prefeitura, qualquer unidade de trabalho tem que ter CIPA.

O professor precisa se conhecer, precisa saber como é a sua voz e os cuidados que precisar ter para mantê-la saudável. É preciso, também, conhecer o ambiente. Muitas vezes o professor não pode mudar as condições do seu trabalho. Mas pode se proteger. 
 

A prefeitura oferece algum tratamento? 

A reabilitação das alterações vocais em professores municipais é feita no Hospital do Servidor Público Municipal. 
Aqui na Coordenação de Gestão de Saúde do Servidor (COGESS) trabalhamos na Promoção da Saúde Vocal e na prevenção de agravos. O Programa Municipal de Saúde Vocal, desde 2004, oferece oficinas de saúde vocal, palestras nas escolas, também o curso de Educação a Distância “Promovendo o Bem-estar Vocal do Professor”, que é oferecido aos professores da rede todo semestre. O número de vagas oferecido ainda está longe de atingir toda rede, pois são aproximadamente 60 mil professores, mas os que se interessam pelo curso e fazem a inscrição se beneficiam bastante com os conhecimentos adquiridos, bem como com os exercícios (respiratórios, articulatórios de ressonância, aquecimento e desaquecimento vocal).

Oferecemos grupos de orientação vocal para professores recém ingressantes, para professores que foram readaptados por alterações vocais no sentido de evitar o agravo do quadro. A readaptação tira o professor da sala de aula, para que este possa se tratar sem fazer uso intenso da voz e depois retorne a função de origem.  
 

Para mais informações, a fonoaudióloga se coloca à disposição. O e-mail dela é ttsouza@prefeitura.sp.gov.br.

1 Comentário

  • Link do comentário Eduardo Terça, 17 Abril 2018 19:03 postado por Eduardo

    No início de minha atividade em sala de aula sofri muito com os danos gerados ao aparelho vocal, em decorrência do uso indevido da voz a que o trabalho de professor nos obriga. Sentia fortes dores, irritação e indisposição ocasionadas pelo abuso da voz nas aulas. Hoje não sofro mais com isto graças à implementação de uma medida simples cujos benefícios são infinitamente maiores que o dinheiro investido. Há oito anos faço uso de amplificadores vocais. Comecei utilizando uma caixinha conectada a um microfone comum e há quatro anos ultilizou um aparelho da marca/modelo TSI Super Voz III. Não ganho nada por essa recomendação. O aparelho custa atualmente de 900 a 1000 reais e pode ser comprado na Santa Efigênia. O preço é abusivo, mas seu uso rotineiro elimina problemas como os relatados neste artigo. Impressiona o fato de que a fonoaudióloga Thelma Mello Thomé não tenha recomendado medidas desse tipo, sem dúvida as mais efizacez.

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