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Quarta, 09 Janeiro 2019 15:52

Brasil tem 38 milhões sufocados pelo analfabetismo funcional

Mônica de Araújo
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Brasil tem 38 milhões sufocados pelo analfabetismo funcional Foto: reprodução/Facebook

Ana Lúcia Lima, pesquisadora e coordenadora do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), descreve a complexa temática

O Brasil precisa equilibrar a economia e gerar mais empregos. A equação é complexa diante de tantas adversidades. E o cenário é provocador.
 

O que fazem, então, os 38 milhões de brasileiros considerados analfabetos funcionais, aqueles que driblam as dificuldades do dia a dia sem saber entender ou se expressar por meio de letras e números?
 

São 29% de brasileiros classificados entre os níveis mais baixos de proficiência em leitura e escrita. Números aberrantes (equivale à população da Polônia) para um país que exige cada vez mais informação e habilidade de sua gente.
 

Em busca de estudos acerca deste universo, o Portal CPP compareceu  ao 2° Ciclo de Debates sobre Analfabetismo, promovido pelo Todos Pela Educação e pela entidade Conhecimento Social, onde Ana Lucia Lima, pesquisadora e coordenadora do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), apresentou informações relevantes do indicador de 2018.
 

Acompanhe os esclarecimentos de Ana Lúcia Lima a respeito da complexa temática.
 

Portal CPP: Qual a atuação do Indicador de Analfabetismo Funcional?

Ana Lúcia Lima: O Inaf foi criado em 2001 numa parceria entre o Instituto Paulo Montenegro – organização sem fins lucrativos, então vinculada ao Grupo IBOPE, – e a ONG Ação Educativa. O objetivo do Inaf é produzir conhecimento sobre o alfabetismo na população brasileira entre os 15 e os 64 anos, uma vez que o país não dispõe de estatísticas oficiais sobre este tema. Parte da concepção de que o alfabetismo não é uma condição binária (ou se é analfabeto ou se é alfabetizado) e sim um processo contínuo que se desenvolve e se consolida à medida em que os sujeitos realizam práticas que requerem o uso de tais habilidades. Estabelecer os níveis de alfabetismo dos brasileiros e dimensionar a proporção de cada nível na população possibilita trazer essa tema para debate na sociedade brasileira e mobilizá-la para o enfrentamento dos desafios que ainda permanecem: 29% dos brasileiros entre 15 e 29 anos são analfabetos funcionais e 34% estão alfabetizados apenas em nível Elementar, o que ainda impõe muitas limitações para atuar de maneira plena em uma sociedade letrada.
 

Qual o universo pesquisado. Quem participou deste estudo?

A amostra do Inaf é de 2.002 casos e é representativa do universo da população brasileira de 15 a 64 anos distribuída por todas as regiões do país e cobrindo regiões metropolitanas, cidades do interior e zonas rurais. A partir de uma seleção, com base nos mais recentes dados disponibilizados pelo IBGE, dos municípios que vão compor a amostra, os aplicadores seguem critérios de amostragem para identificar os respondentes de acordo com o perfil preestabelecido de modo a representar o perfil do universo levando em conta as variáveis sexo, idade e escolaridade.
 

Como são aplicados os testes?

O Inaf é composto por um teste capaz de identificar o grau de domínio de habilidades de leitura, escrita e matemática de cada respondente. Além disso, ele é acompanhado por um questionário onde levantamos as características sociodemográficas dos entrevistados (sexo, idade, escolaridade, religião, cor/raça, situação de trabalho, renda etc.) e uma série de dados sobre práticas cotidianas que envolvem o uso da leitura, da escrita e da matemática. Um dos aspectos abordados com destaque nesta edição é o uso dessas habilidades no contexto digital, o que permite aprofundar as análises sobre como pessoas com diferentes níveis de alfabetismo acessam e fazem uso das diferentes plataformas e serviços disponíveis digitalmente.
 

Como são coletados os resultados do Inaf?

Como comentado anteriormente, os resultados do Inaf são coletados por meio da aplicação de um teste com questões que permitem aferir o grau de domínio do entrevistado diante de situações cotidianas que requerem o uso da leitura, da escrita e de conhecimentos básicos de matemática. É importante dizer que não se trata de uma medida de conhecimento escolar, e, portanto, as questões não tratam, por exemplo, de ortografia ou gramática nem de fórmulas matemáticas. Estão baseadas em situações concretas do dia a dia, apresentando diferentes gêneros textuais em diversos formatos, todos refletindo usos cotidianos das habilidades de letramento e numeramento. A partir da aplicação do teste podemos estabelecer os diferentes níveis de domínio dessas habilidades que, combinadas, convencionamos chamar de Alfabetismo. 
 

Como o Instituto classifica os níveis de alfabetismo?

A escala do Inaf é organizada em 5 níveis: Analfabeto, Rudimentar, Elementar, Intermediário e Proficiente. Os dois primeiros níveis, Analfabeto e Rudimentar são categorizados como Analfabetos Funcionais. Já os dois últimos níveis, o Intermediário e o Proficiente são por vezes tratados conjuntamente como Alfabetizados Consolidados.
 

A tabela abaixo mostra a evolução do indicador ao longo de suas 10 edições, a partir de 2001.

Inaf / Brasil – Níveis de Alfabetismo – 2001 a 2018

(idade:  15 – 64 anos)

 

2001-2002

2002-2003

2003-2004

2004-2005

2007

2009

2011

2015

2018

Analfabeto

12%

13%

12%

11%

9%

7%

6%

4%

8%

Rudimentar

27%

26%

26%

26%

25%

20%

21%

23%

22%

Elementar

28%

29%

30%

31%

32%

35%

37%

42%

34%

Intermediário

20%

21%

21%

21%

21%

27%

25%

23%

25%

Proficiente

12%

12%

12%

12%

13%

11%

11%

8%

12%

          

Analfabeto funcional

39%

39%

38%

37%

34%

27%

27%

27%

29%

Funcionalmente alfabetizado

61%

61%

62%

63%

66%

73%

73%

73%

71%

 

No contexto digital os analfabetos funcionais são imensamente atraídos pelas redes sociais. Segundo a pesquisa, 86% usam WhatsApp, 72% o Facebook e 31% são usuários do Instagram. 

Eu diria que os analfabetos funcionais estão inseridos na sociedade como todo mundo e como todo mundo procuram soluções úteis para seu dia a dia. Assim, uma grande proporção dos analfabetos funcionais que têm acesso à internet declaram-se usuários de plataformas e aplicativos como o Facebook e o Whatsapp em proporções que não se distanciam muito daquelas observadas nos grupos com níveis de alfabetismo mais alto.
É, no entanto, necessário considerar que há uma forte correlação entre o analfabetismo funcional e a escolaridade e de ambos com os níveis de renda: quanto mais alta a escolaridade mais alto o nível de alfabetismo e também mais alta a renda. O inverso também é, via de regra, verdadeiro: os analfabetos funcionais estão altamente concentrados no grupo de menor escolaridade e menor renda. Assim, a principal limitação para o acesso dos analfabetos funcionais para o acesso às redes sociais são os custos relacionados ao acesso à internet.
Os dados do Inaf mostram que 72% dos analfabetos funcionais entrevistados na edição 2018 declararam ser usuários de telefones celulares, mas a proporção dos que declararam ter usado a internet nos três meses anteriores à entrevista cai para pouco mais da metade: 41%. A título de comparação, essa queda é muito menor dentre os que têm alfabetismo consolidado (níveis Intermediário + Proficiente): 97% disseram ser usuários de telefones celulares e quase a totalidade (93%) declararam ter utilizado a internet no trimestre anterior.
Quando consideramos a proporção de usuários de Facebook e Whatsapp para o total dos analfabetos funcionais (usuários ou não de internet) as proporções caem bastante, como se pode observar no gráfico. 

 

 

 

Ainda assim é notável que por volta de 1 em cada 3 analfabetos funcionais utilize Facebook e Instagram, dadas as significativas limitações para o uso da leitura e da escrita. Aprofundar a reflexão sobre as oportunidades e ao mesmo tempo as limitações e desafios proporcionados pelo contexto digital para os analfabetos funcionais é um dos objetivos desta mais recente edição do Inaf.