Terça, 26 Mai 2020 16:06

Adiamento do Enem foi proposto tardiamente pelo ministro

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Adiamento do Enem foi proposto tardiamente pelo ministro Anderson Weber durante aula/Arquivo Pessoal

Prova ansiosamente aguardada pelos estudantes dos quatro cantos do Brasil, o Enem, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), traz para 2020 a novidade da aplicação digital do exame. Entretanto, neste ano, devido à pandemia de coronavírus, as provas foram adiadas. Atípico e polêmico, o Enem 2020 ficará para a história.
 

Para mostrar as diferentes vertentes que o exame apresenta, o Portal CPP convidou Anderson Weber, professor de matemática, diretor do Curso Poliedro e coordenador do Colégio Mater Amabilis, em  Guarulhos. Especialista em Olimpíadas Científicas, formado em Matemática pela Universidade de São Paulo, com MBA em Gestão Escolar e Gestão de Negócios na USP-Esalq, o professor Anderson atua há 25 anos como educador.
 

Portal CPP: A Frente Parlamentar Mista de Educação, o Conselho Nacional de Secretários de Educação, entidades estudantis, secretários de educação e reitores de instituições de ensino justificam os estudos durante a pandemia. Os pedidos de adiamento começaram no final de março. Um problema recorrente, acentuado em época onde não há aulas presenciais, que afeta os que não possuem sequer as ferramentas básicas para garantir o acesso do ensino a distância. O que fazer diante dessa questão que atinge especialmente os alunos da rede pública?

Professor Anderson: Até a metade do mês de maio, menos da metade dos alunos da rede pública de São Paulo acessaram o aplicativo criado pelo governo para aulas online (Folha de são Paulo, 14 de maio). A quarentena que suspendeu as aulas em São Paulo evidenciou o nível baixíssimo de inclusão digital dos alunos da rede pública, especialmente os mais carentes. Como estamos falando do estado mais rico do país, dá para ter uma ideia de como estão outras regiões mais carentes do país, onde o acesso à internet é ainda mais precário. Adiar o Enem, nestas circunstâncias, é atuar em favor da sociedade, para não excluir os alunos mais carentes no processo de inclusão nas universidades federais – ou excluir grande parte dos discentes do nosso país.
 

Mais de 5 milhões de estudantes já tinham feito inscrições para o Enem quando o ministro Weintraub afirmou que a data para a realização do exame será redefinida, após consulta dos próprios inscritos. Qual a data mais adequada frente às circunstâncias deste ano?

O mais justo é alterarmos a data em função da quantidade de dias que durará a quarentena. Hoje, 60 dias seriam suficiente para repor grande parte das aulas perdidas pelos alunos mais carentes. Mas ainda não sabemos qual será a extensão da suspensão das aulas. O primeiro semestre dos cursos de graduação também deverá ter o seu início adiado acompanhando o Enem.
 

O Brasil está em estado de calamidade pública até 31 de dezembro. O Senado aprovou o projeto de lei que adia a aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2020 e os demais processos seletivos de acesso à educação superior devido à pandemia do novo coronavírus. Agora, irá para votação no plenário da Câmara dos Deputados. Em sua opinião, esse adiamento foi proposto no momento certo, da maneira adequada?

O adiamento foi proposto tardiamente pelo ministro, que o fez por pressão de uma derrota iminente na Câmara dos Deputados depois de ter sofrido uma derrota no Senado. Os senadores votaram a favor do adiamento.
Se houvesse antecipação e maior participação de reitores, entidades e sociedade, já poderíamos ter planejado alternativas para o calendário escolar sem contar com o Enem em novembro de 2020.

 

A primeira edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), criado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura), foi em 1998, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso com o objetivo de avaliar os estudantes de escolas públicas e particulares do Ensino Médio. O ministro da Educação era Paulo Renato Sousa. Quais as mais marcantes diferenças entre as gerações diante dos desafios do Enem ?

O Enem foi criado para avaliar o desempenho dos alunos, os sistemas de ensino e, ainda, para medir a evolução das escolas públicas e particulares em diferentes competências. Com o passar dos anos, o Enem foi usado como forma de acesso às universidades federais, estaduais e particulares. As escolas passaram a usar muito o Enem como forma de aferir o desempenho dos alunos e, claro, como instrumento comercial em suas comunicações. A prova também foi ficando cada vez mais técnica e conteudista, perdendo aos poucos seu caráter inclusivo e se aproximando cada vez mais dos vestibulares tradicionais.
 

Em um ano, o estudante e familiares ficam expostos às alterações cotidianas durante o tempo de preparação que antecede o Enem. Como deve ser a postura do candidato diante das circunstâncias inesperadas que cercam o Enem 2020?

O maior desafio neste período de pandemia e quarentena é de que o estudante mantenha o ritmo de estudo mais próximo possível do que tinha nas aulas presenciais. Não é nada fácil, pois mesmo quando ele consegue acesso à internet, boas aulas, bons professores, ainda tem todo o contexto de isolamento, de conviver com incertezas, o medo de um vírus altamente contagioso, da chance de ter parentes ou amigos próximos contaminados e de conviver confinado.

Então, a postura recomendada nesta época é não dar mais importância do que deixou de aprender, e sim àquilo que realmente aprendeu e que pode desenvolver. Alguns vestibulares, como o da Unicamp, farão uma prova mais interpretativa, com menos conteúdos e dando maior relevância aos temas tratados no final do Ensino Fundamental 2 e no começo do Ensino Médio. 
 

Brasil afora os alunos do ensino médio que anseiam entrar numa faculdade têm realidade e perfis muito diferentes. O Enem terá vida longa com essas mesmas caraterísticas ou vai se adaptar às mudanças?

O Enem, como forma de acesso para as universidades, terá vida longa. Pode mudar o formato, com mais ou menos questões, com aplicações mais frequentes ao longo do ano, ou até mesmo a mudança totalmente para o formato digital, mas será, por enquanto, o único vestibular com ramificação em todo o país.

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