Segunda, 10 Outubro 2016 16:16

Pasquale Cipro Neto inicia comemorações aos professores

Mônica de Araújo
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Ao comemorar o mês dos professores, o Portal CPP publica a entrevista de Pasquale Cipro Neto, o mais famoso professor da língua portuguesa, na qual afirma que o texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é tão cheio de problemas que foi preciso a Academia Brasileira de Letras publicar uma nota explicativa. Para o professor Pasquale, que de 2009 a 2014 participou de debates na Comissão de Educação do Senado e integrou um GTT (Grupo de Trabalho Técnico) dessa Comissão, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 1º de janeiro de 2016, atenta contra a inteligência das pessoas.
 

Portal CPP: as novas regras de ortografia deixaram muita gente confusa. A reforma é, de fato, necessária?

Professor Pasquale: Eu respeito tanto quem vê como necessária uma suposta unificação ortográfica entre os países lusófonos quanto quem não vê isso como necessário. Eu estou no segundo time, não acho que era necessário fazer isso. Na prática, nenhum brasileiro jamais teve dificuldade para ler Saramago no original, assim como nenhum português jamais teve dificuldade para ler Machado como se publicava aqui antes do que eu chamo de “Desacordo Ortográfico”. Alguém pode dizer que é necessário unificar porque se passa (ou passaria) a uma grafia só, o que evita (ou evitaria) dificuldades no trânsito internacional da língua, mas isso é muito, muito discutível. Imaginemos um sueco, que mora em Estocolmo e quer estudar português. Cada vez que ele se vê diante da necessidade de optar entre “econômico”, como no Brasil, e “económico”, como em Portugal, ele vai notar que existe uma diferença, que continuam existindo diferenças. Então essa suposta unidade (para facilitar?!) não facilita nada. Nós sempre saberemos se o texto é brasileiro ou português. Sempre haverá indicações disso. Mas suponhamos que de fato haja ou houvesse a necessidade de fazer essa reforma. Então, vamos estabelecer as regras direito, com clareza, rigor etc., mas não foi isso que aconteceu.

 

O acordo ortográfico é um horror. Um amontoado de bobagens. Um monte de coisas que não têm nexo nem fundamento. Tomemos como exemplo a questão do hífen com os compostos de três ou mais elementos. Foi mantido o hífen apenas nos casos em que se nomeiam espécies botânicas ou zoológicas (“jacaré-de-papo-amarelo”, por exemplo). “Bico-de-papagaio” é a planta; sem hífen (“bico de papagaio”) é a doença. Muito bem, mas... Mas há a lista das exceções, que o infame Acordo Ortográfico chama de “casos consagrados pelo uso”. O que é isso? Alguém sabe explicar? Nessa lista, encontra-se “água-de-colônia”, por exemplo. Por que “água-de-colônia” sim e “água de cheiro” não? Isso é um absurdo. E há outras barbaridades.

 

O destino que foi dado ao hífen com os prefixos “pre” e “pro” está recheado de imperfeições. A Academia Brasileira de Letras precisou publicar uma nota explicativa com quinze itens para dizer por que foram tomadas as decisões X, Y e Z. Em Brasília, integrei um grupo de trabalho técnico da Comissão de Educação do Senado cuja finalidade era tentar alterar, melhorar o texto do infame “Acordo Ortográfico”, que eu chamo de “Desacordo Ortográfico”. Mostrei todos os problemas, escancarei tudo. Diante das barbaridades, conseguimos, num primeiro momento, no fim de 2012, o adiamento. O Desacordo deveria ter entrado em vigor em 2013, então conseguimos adiar para 2016. No ano passado tivemos algumas audiências públicas. Uma delas contou com a presença do professor Bechara (Evanildo Bechara, gramático da Academia Brasileira de Letras), que, salvo engano, não conseguiu explicar satisfatoriamente alguns pontos nebulosos de toda essa questão. Quer ver um dos tantos absurdos? Por que “pré-qualificar” e “pré-qualificação” se escrevem com acento no prefixo “pre” e hífen e “prequestionar” e “prequestionamento” se escrevem se acento no prefixo e sem hífen? Qual é a justificativa? Isso é simplesmente inensinável. Já que a Reforma é um fato cabal, é preciso estabelecer um texto claro, sem barbaridades, sem idiotices, porque o texto, do jeito que foi publicado, atenta contra a inteligência das pessoas. Um atropelo do bom senso.

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