Sexta, 11 Maio 2018 10:34

É preciso se conectar com escolas para falar de educação

Leandro Silva
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É preciso se conectar com escolas para falar de educação Foto: divulgação/Serjão Carvalho

Jana Barros, coordenadora pedagógica de Seabra (BA), afirma que vínculo com sala de aula é fundamental para construção de políticas públicas educacionais

“Há muita gente falando de educação sem ir às escolas, sem se conectar de fato com a área. Políticas públicas educacionais precisam ser elaboradas por quem conhece o que se passa em uma sala de aula.” A afirmação é da pedagoga e especialista em didática e currículo pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Jana Barros, intensamente aplaudida em debate sobre formação de professores no contexto da Base Nacional Comum Curricular, realizado na última semana pelo Instituto Ayrton Senna e o Itaú Social.

Coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Seabra, na Bahia, Jana ponderou que a BNCC é importante, um ponto de partida para melhorar currículos escolares. Mas destacou que, às vezes, quem vive a realidade escolar é ignorado. “Professor de área rural tem necessidades diferentes de um professor de área urbana. Será que isso é considerado?”, ponderou, sugerindo que é urgente falar de oportunidades, de desigualdade entre escolas em relação a acesso à internet, existência ou não de bibliotecas, quadras. "Quem está em contato com as escolas, percebendo o tamanho dos desafios, é que tem condições de melhorá-las.”

A educadora e formadora de professores, coordenadores e equipes técnicas de secretarias de educação pelo Instituto Chapada argumentou que o direito de crianças aprenderem a ler e escrever tem de ser inegociável, o que requer formação adequada de mestres. “Formar professor é complexo, sim, mas quando você se aproxima dele se torna mais fácil. Tem que mapear as condições de trabalho de cada um. Bom ambiente de trabalho se reflete em ensino de qualidade", encerrou Jana.

Em outro momento, Elba Siqueira, pedagoga, mestre e doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), destacou que formação continuada é imprescindível, sobretudo que considere harmonia entre inclusão e políticas públicas. “Avançamos bastante em cursos para minorias, por exemplo, voltados a questões raciais, de gênero, meio ambiente, programas desenvolvidos com movimentos sociais. Entretanto, este viés de empoderamento ainda é distante das políticas de ensino atuais. A BNCC precisa uni-los”.

O documento que vai nortear currículos escolares foi criticado pela especialista em políticas públicas, ensino fundamental e formação docente. “A BNCC é pouco amigável, tem linguagem difícil, foi feita por especialistas que acham que entendemos de semiótica. Implementá-la será tarefa árdua para estados e municípios", disse, emendando ser primordial ir além de mera implementação. "Espero que sugiram ajustes durante o processo. Preocupa-me, por exemplo, o critério que será usado para definir em que ano cada aluno deve aprender determinado conteúdo. Há ritmos diferentes de aprendizagem. Às vezes, o estudante vai e volta, e parece que quem fez a BNCC não apreciou tais características.”

A falta de continuidade de programas educacionais entre governos também foi alvo de questionamento. Elba lembrou que estados têm bons materiais de formação, mas que são dispensados quando a gestão autora termina. “Por questões partidárias, ficamos sem memória”, lamentou.

REFERÊNCIAS MUNDIAIS

Uma das mais respeitadas especialistas do mundo em formação de professores, Linda Darling-Hammond, professora emérita de educação da Universidade de Stanford, defendeu mais investimentos para o desenvolvimento de educadores. Segundo ela, que mencionou melhores salários como forma de concentração de investimentos, professores têm deparado com sociedades em rápida evolução.

Linda ressaltou que as sociedades estão mudando depressa, e que professores precisam acompanhá-las, porque nenhuma sociedade avança sem compreensão histórica (oriunda de educação de qualidade). A especialista norte-americana sugeriu que bom caminho pedagógico é o professor experimentar aquilo que ensina, colocar-se no lugar do aluno. "O professor pode testar se o método utilizado é efetivo e instigante", argumentou, alertando para a forma subjetiva de absorção de conhecimento de cada aluno.

Oliver John, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, discorreu acerca de políticas educacionais eficientes. Para ele, modelos de excelência colocam o professor como figura central, o que garante boa escolarização. Em uma de suas apresentações, John definiu escolarização adequada como aquela que propicia saúde, nutrição, poder econômico e condição social.

Sobre o documento brasileiro, ele destacou como positivas competências que fomentem habilidades socioemocionais, acima de tudo, além de exercício da curiosidade intelectual, investigação, reflexão e análise crítica para solução de problemas. John finalizou dizendo esperar que a base seja apenas o começo de uma trajetória de sucesso para a educação brasileira.

Gerente geral da NIE Internacional, membro da consultoria oficial do Instituto Nacional de Educação de Cingapura, Chor Boon Goh falou de como o pequeno país asiático melhorou o sistema de ensino. Tudo começou a partir do currículo, apontando para o que se esperava dos alunos. Os objetivos foram estruturados no desenvolvimento de alunos confiantes, aprendizes autodirigidos – que assumissem responsabilidades pelo próprio aprendizado, contribuintes ativos em relação à sociedade, assim como cidadãos preocupados.

A mudança também considerou atenção especial para a carreira de professor, com salários equivalentes aos de profissionais de formação similar (advogados, médicos) e estímulo a programas de formação continuada. Anualmente, professores recebem 100 horas de treinamento para atualização com o que há de mais moderno em metodologia de ensino. Chor disse ser importante que o professor tenha gosto por ensinar e interesse acentuado pela profissão. “Tem que ser apaixonado pela carreira. Gostar de moldar o futuro da nação, que é o que faz todo professor. E o país que desejar avançar na área vai dar suporte a isso", sinalizou. 

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