Segunda, 06 Abril 2020 13:02

Doria prorroga quarentena até 22 de abril com uso de força policial

Leandro Silva
Avalie este item
(0 votos)
Doria prorroga quarentena até 22 de abril com uso de força policial Coletiva de imprensa/Reprodução

Governador fez discurso incisivo em favor da vida; argumentos refletem orientações de especialistas e lideranças mundiais


O governador João Doria (PSDB) anunciou nesta segunda-feira (6) a prorrogação da quarentena no estado de São Paulo até 22 de abril, para evitar a disseminação do novo coronavírus. Atualmente, o estado tem 4.620 casos confirmados e 275 óbitos. Em coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, o tucano fez discurso incisivo em favor da vida, recorrendo a orientações de especialistas em saúde pública e mencionando falas de lideranças mundiais, como o papa Francisco.

"A vida vem antes do lucro. Dinheiro tem que servir, não governar. As palavras são do papa Francisco", disse o governador. Antes, ele reforçou que as ações do governo são pautadas pela ciência e amparadas na opinião médica desde o início da crise. "Saber ouvir é tão importante quanto saber falar. Mas é preciso ter humildade para saber ouvir, sobretudo em tempos em que alguns gostam de impor as suas vontades e ameaçam aqueles que têm posição contrária. Este é o momento de ouvir a palavra da ciência, a palavra dos médicos, a palavra daqueles que conhecem."


Doria destacou que há consenso médico mundial para isolamento como forma de salvar vidas. "Não são apenas autoridades brasileiras. É a Organização Mundial da Saúde (OMS), são médicos, profissionais e agentes de saúde da maioria dos países do mundo, que já se manifestaram a favor do isolamento."


Nacionalmente, o governador respaldou a medida a partir de recomendações de lideranças diversas. "No Brasil, quero lembrar, defendem o isolamento: o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ministro da Justiça, Sergio Moro, o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, o Centro de Estudos do Exército Brasileiro, e, repito, a maioria dos médicos e cientistas."


O tucano também inseriu no discurso uma referência econômica, baseada no pensamento de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel da Economia (2001), que concedeu entrevista neste final de semana ao jornal O Estado de SP. "A economia será devastada se não salvarmos as pessoas", parafraseou Doria, afirmando que lucros podem esperar, visto que a vida vem antes do dinheiro.


O governador encerrou a fala em tom crítico aos que pedem reabertura do comércio no estado. "Àqueles que me pressionam por WhatsApp, telefonemas e cartas, para que possamos agir contra os nossos princípios e contra os princípios da medicina, pergunto: vocês estão preparados para assinar os atestados de óbito de brasileiros, para carregar caixões e enterrar as vítimas do coronavírus?"


RESPALDO CIENTÍFICO


A coletiva foi planejada com o Centro de Contigência de Coronavírus de SP e teve a presença de especialistas em saúde. O infectologista David Uip, coordenador do centro, destacou que a equipe é formada por técnicos renomados. "Todos os dias nos reunimos, discutimos, e as nossas conclusões são passadas ao secretário de Saúde e ao Governo do Estado.

A fala foi exemplificada pelo doutor Luiz Fernando Aranha, integrante da equipe e infectologista do Hospital Albert Einstein. "O comitê que assessora o governador começou com o entendimento inicialmente intuitivo de que o distanciamento social mais ampliado, mais radical, teria papel fundamental no impacto da epidemia sobre o cidadão comum, pelo simples fato de que a doença é transmissível entre as pessoas. Depois, tivemos um segundo momento, em que a literatura médica confirmou nossas impressões. E o momento atual é de observar os resultados benéficos, tanto em dados do estado, como do município e dos locais em que cada um de nós trabalha."


Posteriormente, Uip deixou um depoimento à imprensa. Ele testou positivo para a covid-19 em 23 de março e ficou 14 dias em isolamento, afastado das atividades no Governo do Estado. 


"Há dois domingos eu me senti muito mal. Eu não consegui falar, estava extenuado. Fiquei sentado numa cadeira e pela primeira vez na vida eu me neguei a falar a uma emissora de televisão. Não consegui. De domingo para segunda, passei muito mal. Na segunda de manhã fui fazer o exame e a tomografia. O exame deu positivo, a tomografia, normal. A semana que seguiu foi de extremo sofrimento. Na segunda seguinte, voltei a fazer o exame e outra tomografia, e nesta apareceu a pneumonia", afirmou.

Segundo ele, o sentimento foi de muita angústia, de dormir sem saber como iria acordar, além do isolamento. "Não é fácil, é de extremo sofrimento, mas absolutamente fundamental. Tive que me reinventar. Tive que criar um David novo, seguramente mais humilde e sabendo dos limites da vida."


EMPREGO DE FORÇA POLICIAL 

O governador alertou que aderir à prorrogação da quarentena é obrigatório, sob possibilidade de intervenção policial em caso de desobediência. "Guardas poderão agir imediatamente para que haja dissipação de qualquer aglomeração. É uma medida que será publicada no Diário Oficial do Estado de amanhã (7) e deverá ser rigorosamente seguida pelas prefeituras", concluiu.

A intervenção terá caráter instrutivo, não compreendendo multa ou sanções mais rígidas para estabelecimentos. Cidadãos, entretanto, poderão ser penalizados de acordo com a lei, o que inclui detenção.

Na cidade de São Paulo, porém, estabelecimentos que descumprirem as normas poderão ser lacrados e ter cassado o alvará de funcionamento, em situação de reincidência. A medida foi anunciada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), que participou da coletiva.

Confira a íntegra do pronunciamento do governo.
 

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.
Campo destinado a comentários relacionados à notícia. Duvidas sobre Vida Funcional devem ser encaminhadas aos respectivos setores.
Clique aqui para ver os contatos.