Quarta, 27 Mai 2020 16:42

Seduc surpreende: professor tem que avaliar aluno até final do mês

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Mesmo sem todos os estudantes terem acesso às aulas, secretaria pede notas para fechar bimestre

 

Sem conseguir que todos os alunos da rede estadual de São Paulo tenham acesso às aulas online, a Secretaria de Educação determinou que os professores têm até o fim desta semana para avaliar e dar notas para suas turmas para concluir o primeiro bimestre letivo de 2020.
 

Além dos estudantes que não conseguem acessar as atividades, há também aqueles que não conseguem devolvê-las para correção. Por isso, os professores relataram não saber como atribuir notas de forma adequada e justa, considerando as dificuldades enfrentadas durante a pandemia do coronavírus.
 

A orientação da secretaria é de que “nenhum aluno deve ser prejudicado por não conseguir acessar as aulas online”, mas que as notas devem ser lançadas no sistema digital da pasta até o fim do mês de maio. A determinação levou a diferentes interpretações pelas diretorias de ensino —algumas comunicaram que os professores deveriam deixar os alunos sem nota e outras, com a nota zerada.
 

A secretaria não informou quantos dos 3,5 milhões de alunos da rede estadual acessaram o aplicativo disponibilizado há um mês para as aulas. O último dado informado pela pasta era de que apenas 1,6 milhão (47% do total) tinha acessado duas semanas após o lançamento.
 

A determinação de continuidade da avaliação vai na direção oposta de outros sistemas educacionais, como o da Itália, Espanha e Nova York, que decidiram não avaliar os alunos durante as aulas a distância. Questionada sobre o objetivo de exigir o estabelecimento de notas neste período, a secretaria não respondeu.
 

Para quem acompanha de perto o andamento das atividades a distância, a determinação não auxilia no desenvolvimento dos alunos. Professor de História de uma escola estadual em Santo André, Raphael da Silva, 29, diz que, dos 200 alunos para os quais dá aula neste ano, menos de 20% realizou as tarefas que enviou.
 

“Não faz sentido pedagógico avaliar a minoria da turma, ainda mais por saber que mesmo esses poucos não conseguiram acompanhar todas as atividades, acessar todas as aulas”, disse.
 

Silva dá aula para turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e disse que os alunos estão com dificuldade de realizar as tarefas, mesmo que sejam simples. Ele deu como exemplo as diferentes respostas que recebeu ao pedir que fizessem um texto sobre a pandemia.
 

“Teve aluno que entregou um trabalho com capa e 30 linhas escritas. Outros me mandaram duas frases porque tiveram de escrever pelo celular. Como eu faço uma avaliação justa desses estudantes que estão na mesma sala?”
 

Na escola em que dá aula, a direção encaminhou um documento aos docentes para que deixem com nota zero aqueles que não tiveram “condição de participar em nada”. Segundo o documento, quando as aulas presenciais retornarem, esses estudantes terão reforço e atividades para verificar a aprendizagem durante o 1º bimestre letivo.
 

Em nota, a secretaria disse que a “redação do texto [do documento da escola] pode ter sido equivocada ao citar o zero”, já que o sistema automaticamente indicará a possibilidade de deixar os estudantes sem nota.
 

A secretaria informou que há “diferentes instrumentos de avaliação” para a que os professores possam atribuir notas aos alunos, como a realização de roteiros de atividades, projetos, pesquisas, avaliação da aprendizagem em processo, observação da participação e engajamento e autoavaliação.
 

Professora de História e Filosofia em uma escola no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, Luana Soares, 36, contou dar aula para 12 turmas de ensino médio, totalizando mais de 400 alunos. Desses, 249 acessaram o aplicativo disponibilizado pela secretaria, mas apenas 170 fizeram e entregaram atividades para correção.
 

“São tantas nuances dentro de uma mesma sala nessa situação, que se torna improdutivo tentar fazer qualquer avaliação. Eu não vou punir nenhum aluno com nota baixa porque não tenho como saber porque ele não entrou no aplicativo ou não fez a tarefa ou fez de forma mais simples”, disse.
 

Sobre a recomendação da secretaria para que os professores avaliem “a aprendizagem em processo”, ou seja a comparação do quanto o aluno evoluiu desde a suspensão das atividades presenciais, Luana lembrou que as aulas foram interrompidas um mês após o início do ano.
 

“A gente ainda não tinha conhecido bem os alunos, não sabia as dificuldades pedagógicas de cada um porque nenhuma avaliação tinha sido feita”, afirmou.
 

O receio dos professores é de que a avaliação pode desestimular ainda mais os alunos neste momento. “O aluno que está se desdobrando para fazer alguma tarefa pode se sentir injustiçado por ser avaliado, sabendo que outros colegas não vão ter nota agora. E aquele que não conseguiu acessar nada pode não querer voltar por medo de não acompanhar”, disse Luana.
 

Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, disse não ver como necessário estabelecer nota aos alunos, já que a secretaria garante no retorno às aulas presenciais fazer uma avaliação de todos os alunos e montar um plano de recuperação e reforço.
 

“Não vejo finalidade na obrigatoriedade de dar nota nesse momento em que os instrumentos de avaliação são tão frágeis. Além de que sinalizar, que pode haver qualquer prejuízo na vida escolar do aluno, aumenta a chance de abandono escolar. Tudo o que não queremos nesse momento.”
 

Para Maria Márcia Malavasi, especialista em avaliação educacional pela Unicamp, a obrigatoriedade para estabelecer notas é contraditória ao que a secretaria afirma de garantir que não haverá prejuízo a nenhum aluno. Para ela, o professor avalia continuamente seus estudantes sem que precise lançar uma nota no sistema.
 

“É uma burocracia, é a necessidade de controlar o trabalho do professor já que para muitos o trabalho em sala de aula só é conclusivo quando há uma nota”, disse.
 

Para a especialista, além do risco de desmotivar alunos que possam receber notas baixas nas atividades que fizeram em casa, a determinação coloca pressão nos docentes. “O professor não foi formado para trabalhar nesse modelo, não teve preparação e se vê ainda mais sozinho ao ter que avaliar os alunos dessa forma. Se eu me visse numa situação de obrigação como essa, daria 10 para todos os estudantes.”

 

Fonte: Folha de São Paulo

5 comentários

  • Link do comentário Cláudia Maria Dos Santos Terça, 02 Junho 2020 13:55 postado por Cláudia Maria Dos Santos

    Caros colegas, tenho trabalhado muito além do meu possível. Não tenho nem acesso ao tal Centro de Mídias porque não tenho a tecnologia necessária para isso. Meu telefone é de 2015 e quando tento acessar fala que é incompatível. Tenho enfrentado dificuldades enormes, minha saúde emocional está extremamente abalada. É muita pressão em cima dos professores. Tenho ido fazer plantão de atendimento telefônico aos pais de alguns alunos e orientado por email. Não consigo nem ter um acesso satisfatório no google classroom, também porque o telefone é mais antigo.
    CPP: encaminhado à Procuradoria. Aguarde retorno por e-mail.

  • Link do comentário ELLIS AGEU MUZEL Domingo, 31 Mai 2020 19:10 postado por ELLIS AGEU MUZEL

    Secretario disse em uma live no cmsp que os pais e a comunidade agora vao valorizar o trabalho do professor.Que paradoxo pois o proprio governador a que sr secretario dirige a pasta,nao reconhece e nem valoriza os professores e pessoal da Educaçao.Ha anos sem reposiçao salarial e nem os dez por cento ganhado na justiça nos paga.Agora com esta pandemia pode esquecer qe nem falara de reajuste.
    CPP: encaminhado à Procuradoria. Aguarde retorno por e-mail.

  • Link do comentário Ana Lucia dos Santos Sexta, 29 Mai 2020 02:02 postado por Ana Lucia dos Santos

    Criticar é muito fácil, difícil é fazer melhor.
    Estamos trabalhando para que os alunos não fiquem sem acesso aos conteúdos e conhecimento.
    As aulas on-line no CMSP tem foco nas habilidades essenciais, o professor complementa essas aulas e os alunos realizam as atividades, recebemos devolutivas maravilhosas que propiciam a aprendizagem e avaliação do aluno. Temos muitos alunos que estão engajados e o professor disponibilizando seu tempo acolhendo dando suporte. Claro que não são 100% mas o que estamos conseguindo não pode ser desprezado. A secretaria disponibilizou meios para que isso ocorra como exibição na TV, CMSP com internet grátis, mídias socials, YouTube.
    A orientação para deixar sem nota quem não realizou nada é correta com quem realizou, e o que não conseguiu terá a oportunidade em fazê-la no retorno das aulas presencial por meio de recuperação.
    Enfim! Sou Coordenadora pedagógica fazemos estudos, plano de aula, roteiro de estudo, atendemos pais e alunos e merecemos respeito e valorização pelo o que estamos conseguindo fazer.
    Agora sabemos que a questão social é um grande desafio neste país, porém trabalhamos com essa realidade desde sempre sem apoio algum da sociedade e não é só pq estamos em quarentena que isso surgiu.

  • Link do comentário Dulcineia Ragozoni Quinta, 28 Mai 2020 10:23 postado por Dulcineia Ragozoni

    Isso já era de se esperar, o sistema de progressão continuada, está acontecendo de forma Digital,mas isso já acontece a tempos, dentro de sala, o aluno que participa são os mesmos que em sala produzem. Educação no Brasil é uma farsa , só querem números.

  • Link do comentário Pasqualina Faruolo Quarta, 27 Mai 2020 23:58 postado por Pasqualina Faruolo

    Seduc sempre surpreendendo. Só não surpreende com um reajuste digno e cumprimento da data-base!!! Agora então, tudo será culpa do coronavírus!

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