Sexta, 09 Abril 2021 12:29

Óbvio, professora, para ser princesa tem que ser branca e magra"

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Como costuma fazer todos os dias, a professora de educação infantil Carla Pinheiro começou sua aula com estudantes da educação infantil de uma escola municipal de Lauro de Freitas na Bahia com uma roda de conversa com seus alunos. Ela sempre aproveita este momento para fazer uma leitura em conjunto. Naquele dia, havia escolhido o livro "Qual é a minha Cor" da escritora Martha Rodrigues.

"Qual é a minha cor" retrata a jornada de um contador de histórias negro que repassa oralmente histórias do povo negro. "Isso dialoga muito com a educação infantil, que precisa trabalhar com todos os aspectos da formação de uma criança, inclusive o desenvolvimento da inteligência emocional", explica a educadora. Antes mesmo de terminar a leitura, Carla ouviu a reclamação de um aluno negro: "Minha prô, eu não quero ser pretão", disse o estudante, se referindo à maioria dos personagens que eram negros. A negativa do estudante impactou a professora. A maioria da população brasileira é negra, e o estado da Bahia percentualmente tem a quarta maior população negra entre os estados brasileiros, com percentual de 80% de pretos e pardos. A média nacional é 54%.

A arte da transformação

Carla resolveu enfrentar o problema da falta de representatividade utilizando a arte como ferramenta de transformação. Assim nasceu o projeto "Uhuru procura-se representação". Uhuru significa liberdade em Suaíli, língua banta falada em diversos países da África. A professora diz que a literatura pode ser um caminho para provocar a descoberta e a aceitação da identidade negra. "Sobretudo porque ela consegue abordar o assunto com a linguagem da criança.", acredita. Mesmo com a porcentagem alta de negros na população da Bahia, a educadora encontra dificuldades para realizar discussões de raça em sala de aula. "Muitos professores são negros, mas quando chega a fichinha do censo escolar, não se declaram, é um problema de representatividade e identidade" diz.

A legislação brasileira obriga o ensino de arte e cultura negra e africana na sala de aula. No entanto, Carla conta que a realidade é mais complicada: "A gente encontra pouco material didático, ou literatura infantil na biblioteca e muitas vezes as referências chegam dos estudantes". Seu foco mudou para os desenhos animados depois que, durante uma sessão de cinema do filme "Frozen", feita com os alunos, a educadora perguntou aos estudantes o que era preciso para ser de fato uma princesa. A resposta de uma menina chocou: "Professora, é óbvio, pra ser princesa precisa ser branca, magra e casar com um príncipe."

Para quebrar esse estereótipo a educadora precisou buscar referências de desenhos que tivessem representações de diferentes corpos, valorizasse a criação de referências negras para os estudantes. Ao assistirem: "Nella, uma princesa corajosa", os estudantes saíram instrumentalizados para questionar os estereótipos de "princesa" presentes na maioria das animações. "Fizemos uma roda de conversa, e os estudantes passaram a questionar os padrões de beleza impostos pela maioria dos desenhos exibidos na tv e no cinema.

Fonte: UOL

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