Terça, 20 Abril 2021 16:54

Diga não ao homeschooling!

Avalie este item
(0 votos)

Vera Iaconelli

Cavalo de Troia passa despercebidamente ameaçando nosso futuro


Não canso de me chocar com imagens que colocam lado a lado o Irã dos anos 1970 com o mesmo país após a Revolução Islâmica de 1979. Vemos nas fotos atuais a deterioração completa do lugar da mulher na sociedade iraniana, a perda de liberdade de ambos os gêneros, o inferno da perseguição a credos e costumes, o controle da vida privada dos cidadãos. Mas atenção, sua versão jabuticaba não pode ser subestimada.

A marcha à ré acelerada que o povo brasileiro engatou recentemente é um projeto de tirar o fôlego e representa anseios autoritários antigos, como Lilia Schwarcz documenta em sua obra "Sobre o Autoritarismo Brasileiro" (Cia das Letras, 2019). Tem conseguido retrocessos em todas as áreas de forma ampla e irrestrita: velhíssima política, escola sem reflexão, Estado francamente religioso, agenda ambiental digna da Revolução Industrial, pauta de costumes ultraconservadora. Olhe para qualquer lado e você verá algo a ser denunciado e contra o qual lutar para que sejam mantidos direitos básicos, conquistados a duras penas.

No entanto, esse show de horror só tem como se instalar definitivamente se a educação for impedida de cumprir sua função primordial: instruir com crítica, informar, socializar, enfim, educar para a cidadania e para o bem comum, a partir da ciência, sem ignorar a subjetividade.

Se a transmissão geracional se deteriorar ainda mais, seremos sucedidos por uma geração para quem racismo, misoginia e outras formas de opressão serão naturalizadas de forma programática e não haverá contraponto ao discurso hegemônico. Isso equivale a dizer que as crianças criadas no Estado fundamentalista não encontrarão nem nos livros de história - devidamente censurados - a versão do Estado laico e democrático que o precedeu.

Então, se você luta contra a reprodução de relações sociais nas quais existam sujeitos com mais direito a viver do que outros e contra todo tipo de injustiça social, comece a se ocupar seriamente com o projeto que tramita atualmente no Congresso Nacional em favor da "educação domiciliar".

O cavalo de Troia, que vai passando despercebidamente a partir do uso necessário e pontual da escola virtual durante a pandemia, carrega em seu bojo o pior. Animados por lobbies da educação que vendem acessibilidade, democratização do ensino e de desempenho, mesmo os progressistas têm tido dificuldade de lutar contra o risco iminente.

Encampado pela ministra Damares Alves - que tem se mantido fora dos holofotes para melhor passar sua boiada, o ensino domiciliar aponta para um caminho natural e inequívoco na direção do uso de recursos da educação (Fundeb) para financiar grupos religiosos e filantrópicos que assumam a tutoria pedagógica de um grupo considerável de crianças que se verão afastadas da escola presencial.

Lembrando que o "bispo" Edir Macedo declarou publicamente que desaconselha sua filha a estudar, pois o estudo da mulher atrapalha o casamento - fica claro o rumo dessa conversa. No Brasil a escola representa merenda, resistência ao trabalho infantil, vigilância contra a violência doméstica, convívio entre sujeitos de origens e costumes diferentes, igualdade de oportunidades, alternativa aos limites da família.

Entre interesses financeiros inescrupulosos, a retirada dos filhos de evangélicos do campo da escola presencial e a possibilidade de produção de material pedagógico próprio - projeto defendido há anos por Olavo Terra Plana de Carvalho, estrago irreversível que estão tramando sob nossos olhos? Deputada Tabata Amaral, peço que diga não a mais essa terrível ameaça.


Vera é diretora do Instituto Gerar, autora de "O Mal-estar na Maternidade" e "Criar Filhos no Século XXI". É doutora em psicologia na USP.

Última modificação em Terça, 20 Abril 2021 18:25

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.
Campo destinado a comentários relacionados à notícia. Duvidas sobre Vida Funcional devem ser encaminhadas aos respectivos setores.
Clique aqui para ver os contatos.